"Nasci ao meio-dia e quinze do dia 28 de Julho de 1953, em São Paulo, na Pro Matre (bairro da Bela Vista). Leão, com ascendente em Escorpião e a Lua sozinha e carente em Peixes. Fui criado em Santo Amaro (que eu chamo de Santo Amaro da Poluição - antítese da Santo Amaro da Purificação de Caetano, Bethânia e sua talentosa família). Morava numa boa casa de arquitetura moderna pra época - mas nada de esnobe - meus pais sempre foram "low-profile", muito trabalhadores. Dr. Gelson, médico-cirurgião, e Dona Hebe, bibliotecária e tradutora foram pais rigorosos, em especial com o único filho homem.
Tenho duas irmãs, a Ana Cristina, mais velha que eu um ano e dois meses, professora de Educação Física, e a Heloisa, mais nova que eu nove anos, médica. Estudei no primário no Alberto Conte, em Santo Amaro, e o ginásio no legendário Vocacional do Brooklyn.
Com o AI-5 houve uma intervenção na escola, e minha mãe preferiu que eu fosse para o Roosevelt, na Liberdade, terminar o ginásio e fazer o Colegial. No segundo ano do colegial fui "convidado" pelo diretor a sair, pois estava muito delinqüente. Guerras de ovos, brigas, desordens aconteciam todos os dias...
Realmente, exceto no primário, quando tirei notas altas (evidente, D. Hebe fazia as lições junto), nunca fui aluno brilhante porque era palhaço demais em todas as classes. Peitava professores, vivia dando gargalhadas altas e sendo expulso da sala, sempre muito palhaço, mas no final me dava bem estudando um ano em um mês.
De piano, fui péssimo aluno, jamais passei das Invenções a duas vozes de Bach, que aliás adoro. Em Santo Amaro, tive como professora particular a Dona Joanita e depois, já morando no Jardim Paulista, tive outros dois professores, o Helio e o Gorga, todos esforçados, mas era inútil - eu era dispersivo e indisciplinado.
Uma vez, tirei de ouvido uma peça difícil de Haendel, o "Harmonious Blacksmith", apenas escutando o vinil com o cravo da Wanda Landowska, e fui, cara-de-pau, fazer de conta que havia estudado pela partitura. D. Joanita percebeu que na mudança de página eu continuei a tocar, sem virar a folha. Pronto. Fui desmascarado no ato - me lembro disso com carinho. Eu passava as férias em Santos, Praia Grande, Campos do Jordão, mas principalmente em Araraquara, com minha querida avó Iracema e meu avô Luiz, advogado do IAPI.
Foi uma infância feliz, com muito sorvete, cinema, soltando pipa e jogando bola (meio perna de pau) - era bom de carrinho de rolimã. Meu pai teve um papel determinante na minha formação musical, tocando seu violão brasileiro (tocava super bem, numa linguagem do "regional" tradicional, com sambas, sambas-canção, chorinhos). Também foi ele quem sempre levou discos pra casa, da bossa-nova aos Beatles, constantemente antenado nas novidades. Pois não fomos dos primeiros no bairro a ter um "Hi Fi" – uma vitrola estereofônica, a última palavra...
Aos seis anos eu já tocava um cavaquinho, presente de um Natal, e mais tarde um bandolim. Depois fui encaminhado por meus pais a estudar piano, por volta dos seis anos, quando eles compraram um Kastner de armário, muito bom por sinal, fabricado pela Pianofatura Paulista, com máquina alemã, o que seria mais tarde chamado de Fritz Dobbert... A música sempre soou dentro de minha cabeça, como se houvesse um radinho ali sempre ligado. Talvez por isso em nunca consegui (e ainda não consigo) ficar ouvindo muitos discos. Menino, eu ficava ouvindo música e pensando como deveria ser bom ser aquela figura oculta, o COMPOSITOR, aquele que bola a música, que gera o sinal inicial, o fundamento...
Claro que alguns discos foram exaustivamente ouvidos ao longo da minha vida, e eu enumeraria aqui: o vinil "Chega de Saudade", de João Gilberto, com "Bim Bom" do outro lado, é o campeão absoluto; Edu Lobo com o Samba Trio, Baden Powell e tantos outros da Gravadora Elenco de Aloysio de Oliveira; Elis e Tom (aliás o Tom é meu Rei absolutíssimo), muito Taiguara, muito Chico, Caetano, Gil, muito Milton, Lô Borges e o maravilhoso movimento de Minas. Dos internacionais, Glenn Miller, Ray Charles, Beatles, Stones, Santana, Steppenwolf, The Who, Yes, Genesis, Emerson, Lake & Palmer, Clapton, Faces com Rod Stewart, Gentle Giant, Hendrix, Vangelis solo e em seu Aphrodide´s Child e o grupo progressivo italiano Le Orme são os que mais me recordo. A década de 60 foi riquíssima, é impossível não estar aqui sendo injusto com alguma coisa...
Eu dei uma encurtada pois é muito grande, se ficou interessado e quer ver mais sobre esse cantor acesse esse site: https://www.letras.com.br/biografia/guilherme-arantes
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